quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Gustavo Ioschpe

Eu raramente leio a revista Veja, até que outro dia me deparei com este belo texto do economista Gustavo Ioschpe "Professor não é coitado"

Ele inicia "O professor brasileiro é um herói. Batalha com afinco contra tudo e todos em prol de uma educação de qualidade em um país que não se importa com o tema, ensinando em salas hiperlotadas de escolas em péssimo estado de conservação. Tem de trabalhar em dois ou três lugares, com uma carga horária exaustiva. Ganha um salário de fome, é constantemente acossado pela indisciplina e desinteresse dos alunos e não conta com o apoio dos pais, da comunidade, do governo e da sociedade em geral. "

Esse é o retrato do professor que já faz parte do imaginário popular e segundo o articulista da Veja, Gustavo Ioschpe, temos motivos de sobra para suspeitar desta visão, observemos então seus argumentos

Segundo a última Sinopse Estatística do Ensino Superior, em 2005 havia 904.000 alunos matriculados em cursos da área de educação, ou o equivalente a 20% do total de alunos do país. É a área de estudo mais popular, deixando para trás gerenciamento e administração (704.000) e direito (565.000). Ademais, é uma área que só faz crescer: em 2001, eram 653.000 alunos – um aumento de quase 40% em apenas quatro anos.
No mercado profissional, os números do professorado também são mastodônticos. Segundo dados da última Pnad tabulados por Simon Schwartzman, há 2,9 milhões de professores em todo o país. É provavelmente a categoria profissional mais numerosa.

Surge o questionamento: se a carreira de professor é esse inferno que se pinta, por que tantas pessoas optam por ela? Pior: por que esse interesse aumenta ano a ano? Seria uma categoria que atrai masoquistas? Ou desinformados?

Seguindo a linha de raciocínio unilateral e limitada do colunista chegaríamos a seguinte conclusão se a carreira de professor tem tanta procura é porque não é tão ruim, deve ter suas vantagens, não? Afinal é a carreira que mais tem alunos.
Ora o que ele se esquece de mencionar ou que talvez não tenha pesquisado é que as carreiras que envolvem licenciatura estão entre as mais baratas, as que exigem menos dos interessados e as que duram menos tempo. Num país onde a população tem um poder econômico deveras reduzido, onde falta emprego e o trabalho mal remunerado é abundante, quantos destes alunos não estão nestes cursos por mera falta de opção? Quantos deles terminam o curso? Quantos deles de fato exercerão a função no futuro? Quantos deles não fazem estes cursos apenas para obterem o nível universitário?
Estes dados existem? Foram pesquisados? Alguém também analisou o número de professores que abandonam a carreira? O número de professores que fazem outros concursos públicos? Será que o senhor Ioschpe se fez estas perguntas?
O fato da carreira ser popular não significa que ela seja de fato atrativa, quantas profissões populares não são atrativas? Só porque temos um número gigante de pedreiros, trabalhadores rurais e garis, isto quer dizer que vale a pena seguir uma dessas carreiras? Então porque não vemos executivos largarem suas gravatas e irem trabalhar como pedreiros ou dar aulas na escola pública?

A maioria dos professores trabalha em apenas uma escola. Segundo o Perfil dos Professores Brasileiros, ampla pesquisa realizada pela Unesco, 58,5% têm apenas um local de trabalho. Os que fazem dupla jornada são pouco menos de um terço: 32,2%. Só 9%, portanto, trabalham em três escolas ou mais. Sua carga horária também não é das mais massacrantes: 31% trabalham entre uma e vinte horas em sala de aula por semana, 54% ficam entre 21 e quarenta horas e o restante trabalha mais de quarenta horas.

O fato de um professor trabalhar em apenas uma escola não significa que sua carga de trabalho não seja grande, caso o colunista não saiba na maioria dos lugares além da carga horária básica os professores podem pegar aulas extras. Agindo desta forma a maioria deles chega muito perto das quarenta horas de trabalho. Eu gostaria de saber quantos deste 58,5% fazem isto? E ainda os que não o fazem, quais as razões de não fazerem? Quantos dos sujeitos pesquisados trabalham em universidades, quantos em escolas particulares e quantos em escolas públicas? E finalmente se isto atrapalha ou não o seu modo de vida, se eles não se sentem prejudicados por causa disto?
Segundo o artigo há 2,9 milhões de professores em todo país, 58, 5% deles trabalha só em uma escola e somente 41,5% trabalha em mais de uma escola, será que poderíamos considerar que são poucos? Isto não quer dizer que mais ou menos uns 1,2 milhões de professores trabalham em mais de uma escola? Eu não considero este número insignificante. Também há uma coisa que Ioschpe não cita a porcentagem de mulheres que trabalham em uma única escola e superior a de homens, não cabe aí questionar se elas são a principal fonte de renda da família? Se tais mulheres escolhem permanecer numa única escola por contarem com a ajuda de seus maridos mais bem remunerados.

Os professores costumam argumentar que seu trabalho se estende para fora da sala de aula, com correção de tarefas, preparação de aulas etc. Nisso, não são diferentes de todos os outros profissionais liberais – qual o médico que não estuda fora do consultório ou o advogado que não pesquisa a legislação nos horários fora do escritório?

Sim o trabalho dos professores se estende para fora da sala de aula, assim como outros profissionais, só que um médico ou um advogado ganha mais do que o professor, além disso ele deveria levar em consideração que as situações enfrentadas por essas categorias profissionais são muito diferentes e devem ser analisadas de maneira específica. Professores precisam atender as expectativas de um grande número de alunos ao mesmo tempo, não atendem seus clientes um por vez, não costumam ter intervalos no seu trabalho além dos estabelecidos no horário regular, utilizam-se da voz excessivamente. E finalmente eu gostaria de saber se o articulista levou em consideração a quantidade de problemas de saúde enfrentados pelos docentes.

O que os representantes da categoria não costumam mencionar são as vantagens da profissão: as férias longas, a estabilidade no emprego e o regime especial de aposentadoria (80% são funcionários públicos) e, sobretudo, a regulamentação frouxa. No estado de São Paulo, 13% dos professores da rede estadual faltam a cada dia, contra 1% daqueles da rede privada. Há um amontoado de proteções jurídicas para que essa ausência não redunde em perda salarial – infelizmente, não conseguimos blindar o aprendizado dos alunos contra as faltas docentes.

Em primeiro lugar nosso amigo não citou o fato de muitos professores serem contratados pelo estado, não citou o fato de que nosso salário base só é melhorado por causa das gratificações, as quais desaparecem em sua maioria quando nos aposentamos, ele também não cita dados que possam nos dizer quanto das faltas é motivado por motivos de sáude. As férias longas são uma das poucas reais vantagens que temos, estabilidade no emprego e regime especial de aposentadoria são vantagens de vários funcionários públicos, não é a toa que os concursos públicos são tão concorridos, contudo se fizessemos uma pesquisa para saber qual o nivel da concorrência e qual a dificuldade para se passar no concurso, qual seria mais díficil técnico da receita ou professor?

Não é correta, também, a idéia de que os professores trabalham em estabelecimentos superlotados. Segundo os dados oficiais, há 27 alunos por turma no ensino fundamental (de 1ª a 8ª série). A relação só sobe nos três anos do ensino médio, para 37 alunos por turma – dentro da normalidade, portanto.

Parece que o nosso amigo esta levando em consideração o número total de escolas, inclusas as privadas que costumam ter menos alunos, mas mesmo que ele não esteja o que ele não cita é que no relatório da Unesco há uma disparidade absurda no número de alunos por sala em todos os estados brasileiros e regiões, no Nordeste a média é de 53 alunos. Ora se levarmos em conta os extremos absurdos deste país é claro que teremos essa média agradável, mas de que importa este número médio? A realidade é que há sim escolas superlotadas e que os governos devem agir para diminuir o número de alunos nela, não importa se são maioria ou minoria, aliás se são minoria tanto melhor, pois eles não terão tanta desculpa para resolver o problema.

Tampouco procede a idéia de que as escolas não tenham as condições mínimas de infra-estrutura para a realização de aulas. As histórias de escolas de lona ou de lata rendem muito noticiário justamente por serem a exceção, a aberração. Mais de 90% de nossas escolas de ensino fundamental têm banheiro, água encanada e esgoto, e 87% contam com eletricidade. Quase um terço tem quadra esportiva, e 42% dispõem de computadores. Certamente há muito que melhorar, mas é igualmente certo que o nosso professorado não trabalha em condições infra-estruturais sofríveis.

Nossa que coisa incrível! 90% das escolas têm banheiro e 87% têm luz elétrica, puxa vida, sempre achei que ter banheiro e luz elétrica não passava de condição básica e essencial para qualquer atividade. Então vamos ficar felizes por que a maioria de nossas escolas possui o mínimo aceitável, o que há de bom nesses dados, absurdo é constatar que 10% de nossas escolas ainda não têm banheiros e 13% não têm luz elétrica, claro porque este é um país pobre que não tem dinheiro para nada, mas tem dinheiro para fazer Copa do Mundo e sediar Panamericano, talvez se não estivessem tão preocupados com a Copa todas as escolas já teriam banheiro e luz elétrica.
E 42% de nossas escolas tem computador, este sim é um dado bom, se constatarmos que eles estão de fato operando e servindo para alguma coisa. Será?

A idéia de um professor acuado pela violência também não se confirma quando contrastada com a frieza dos dados. Questionário respondido pelos professores quando da aplicação do Saeb, o teste do ensino básico, revela que apenas 3% deles haviam visto, em toda a sua carreira, alunos com armas de fogo, que só 5,4% dos professores já foram ameaçados e 0,7% sofreu agressão de aluno. São incidentes lamentáveis e que devem ser punidos com todo o rigor da lei. Essa quantidade de problemas, porém, está longe de indicar uma epidemia de violência tomando conta das nossas escolas.

Nosso amigo novamente cita dados extremamente pontuais que abordam somente os problemas de violência mais gritante, a violência institucional, a violência verbal e outros tipos nem são mencionados. Além disso no artigo original ele mostrou uma foto de uma viatura passando na frente de uma escola, como se isto bastasse para dizer que não existe violência nelas, por acaso existem dados sobre a efetividade desse policiamento? O governo pode mandar que uns 200 carros de polícia passem diariamente em frente as escolas, se a ação consiste nisso apenas, a violência irá continuar em seu interior.

Finalmente, a questão crucial: o salário. Há uma idéia encravada na mente do brasileiro de que professor ganha pouco, uma mixaria. É verdade que o professor brasileiro tem um salário absoluto baixo – o que se explica pelo fato de ele ser brasileiro, não professor. Somos um país pobre, com uma massa salarial baixa. O professor tem um contracheque de valor baixo, assim como médicos, carteiros, bancários, jornalistas e todas as demais categorias profissionais do país, com exceção de congressistas (e suas amantes). Quando estudos econométricos comparam o salário dos professores com o das outras carreiras, levando em consideração a jornada laboral e as características pessoais dos trabalhadores, não há diferença para a categoria dos docentes. Ou seja, os professores ganham aquilo que é compatível com a sua formação e o seu trabalho, e ganhariam valor semelhante se optassem por outra carreira. Quando se leva em conta a diferença de férias e aposentadoria, o salário do professor é mais alto do que o do restante. Estudo recente de Samuel Pessôa e Fernando de Holanda, da FGV, também mostrou que o salário do professor de escola pública é mais alto do que aquele recebido por seu colega de escola particular. Achados semelhantes emergem quando se compara o professor brasileiro com aquele de outros países. Enquanto aqui ele ganha o equivalente a 1,5 vez a renda média do país, a média dos países da OCDE (que têm a melhor educação do planeta) é de 1,3. Na América do Sul, os países com qualidade de ensino melhor que a brasileira têm professores que recebem menos: 0,85 na Argentina, 0,75 no Uruguai e 1,25 no Chile. Esses são dados um pouco defasados, de 2005. É provável que atualmente o quadro seja ainda melhor, pois os estudos sobre o tema mostram que os rendimentos dos professores vêm aumentando, à medida que mais deles têm diploma universitário. Segundo os dados da última Pnad colhidos por Schwartzman, houve um aumento de 20% nos rendimentos dos professores da rede estadual e de 16% nos da rede municipal apenas entre 2005 e 2006.

Somos um país pobre? Parece que Ioschpe não leu direito suas próprias fontes segundo o relatório da Unesco "O Brasil não é um país pobre, mas tem um número excessivo de pobres. É que, apesar do seu alto grau de desenvolvimento, que o coloca entre as onze maiores economias do mundo, e a renda per capita de sua população, superior à de 75% da humanidade, 53 milhões de brasileiros vivem na pobreza. Pior: desse enorme contingente, 22 milhões encontram-se em condição de miséria. O que explica esse paradoxo? O fato de o Brasil ter
uma das mais elevadas desigualdades de renda do mundo."
então o fato dos salários serem baixos vem da má distribuição de renda.

Ao comparar o salário dos professor com o de outras categorias ele saí em vantagem, não porque seu salário seja bom e sim porque a população brasileira têm visto seus ganhos sendo reduzidos ao longo dos anos, logo o que ele diz é que o professor assim como todo o brasileiro deve é ficar satisfeito com a mixaria que recebe, penso exatamente o contrário o professor deve sim continuar sua luta e outras categorias também devem acordar e agir.

O professor deve ficar feliz por ganhar de forma equiparada a outras categorias do país, se compararmos o seu ganho com o de profissões como coveiro, gari e outras que não exigem formação específica imagino que ele se posicione melhor do que estas, mas ao compará-lo com as profissões graduadas como é que fica, por um acaso o colunista nos traz este dado?

O colunista cita também que os professores recebem 1,5 vezes a mais do que a renda média do país e que em outros países este ganho é menor. Muitos destes países, no entanto, têm muito mais oportunidades de emprego e de ganhos e pode ser que ganhar abaixo da renda média não seja tão ruim quanto parece, além disso qual é o poder de compra real dos salários destes países, será que comparando o poder de compra os professores brasileiros saírão em vantagem?

Houve um aumento de rendimento de 20% e 16% isso sim é boa notícia, mas eu gostaria de saber se em contrapartida não houve aumento de gastos.

A mitificação do nosso professor impede que o vejamos como ele é: um profissional, adulto, consciente de suas decisões e potencialidades, inserido em uma categoria profissional que, como todas as outras, abriga muita gente competente, muita gente incompetente e muitos outros medíocres e que, portanto, deve receber não apenas encorajamento e defesa condescendentes, mas também cobranças e críticas construtivas e avaliações objetivas de seus méritos e falhas. Só assim melhoraremos o desempenho das nossas escolas e daremos um futuro ao país.

E ele encerra seu texto propondo aquilo que nenhum de nós sabia: que o professor deve ser cobrado pelo seu trabalho. Nossa, nunca li isso em nenhum lugar, nunca pensei nisto, graças a deus que Ioschpe me mostrou a luz. Ser cobrado não é um problema para o professor, o problema é ser cobrado sem ter condições de trabalho asseguradas. Apesar de toda a retórica de mão única utilizada pelo articulista da Veja, que afirma que tais problemas não existem que os professores estão bem, que reclamam a toa e que deviam mesmo é trabalhar mais. A realidade está muito além do que números frios que abordam aspectos gerais e que esquecem as sutilezas, a amplitude e complexidade do problema educacional. Um quadro bem feito do professorado brasileiro deve conter o maior número de dados possíveis e ainda assim deve ser visto com cautela já que estatísticas servem apenas para relativizar situações e traçar objetivos gerais quando tratam de questões humanas onde sempre há uma gama de fatores que não podem ser mensurados pura e simplesmente. Soluções para a educação virão de pesquisas de campo mais sérias que analisem as dificuldades a fundo e não de panoramas gerais que podem ser interpretados conforme o gosto do freguês.

A educação precisa de gente que tenha visão ampla, que enxergue a questão por várias perspectivas e que analise as diversas realidades do país, tratando-as da maneira que cada uma delas merece e não de pessoas que observam do alto de uma montanha e que de longe sentem que tudo está bem.

NOSSA GUERRA

Leiam agora um interessante texto de Cristovam Buarque

Na semana passada, no município catarinense de Joaçaba, uma moça pôs um gravador na minha frente e perguntou: “O que você diria ao pai de um jovem de 16 anos que diz ter decidido ser professor?” Respondi: “Diria que me sentia como se o rapaz estivesse se alistando no Exército em tempos de guerra. O pai tem todo o direito de se assustar com o futuro do filho, mas tem motivos para se orgulhar do seu patriotismo”. A pergunta de Santa Catarina se justifica plenamente. Hoje, raros pais ficam felizes com a opção de um filho pelo magistério. Um mês atrás, em Brasília uma professora da rede pública me disse que o pai deixou de falar com ela, desde quando ela lhe comunicou sua opção pelo magistério. No Brasil, escolher o magistério é um gesto extremo, como alistar-se para ir à guerra. É triste reconhecer, mas a carreira de professor não oferece um futuro promissor. O jovem que escolhe essa carreira provavelmente terá um salário baixo, trabalhará em escolas fisicamente degradadas, não contará com modernos equipamentos, enfrentará turmas desmotivadas e estará sujeito a atos de violência. Entretanto, são esses os profissionais que enfrentarão a guerra da construção do futuro do Brasil. São soldados do futuro, são patriotas. A razão óbvia para essa posição está nas péssimas condições de trabalho, inclusive salariais. Por trás, há razões mais profundas. Quando um jovem escolhe a carreira de médico ou engenheiro, o pai vê três vantagens: um futuro promissor, uma boa remuneração e o orgulho de filho que ajuda a construir o País. É um soldado do futuro e bem pago. Na opção pelo magistério, o pai não tem o sentimento de construção do futuro, do respeito social pelo filho, e sabe dos baixos salários que ele provavelmente terá. Ainda mais do que o salário, o que pesa na frustração dos pais é a falta de reconhecimento, como se esta fosse uma profissão menor. Mas a falta de reconhecimento decorre principalmente do baixo salário. Cria-se um círculo vicioso: não é uma carreira de sucesso porque os salários são baixos, e não há reconhecimento. O professor se sente diminuído e mais diminuído fica. Os servidores do Banco Central fizeram uma greve, no mesmo período que professores em diversos estados. Em média, o simples aumento pleiteado pelos funcionários do Banco Central equivalia a quase duas vezes o salário mensal dos professores. Porque, na visão do Brasil, a educação é secundária. Não se percebe que o futuro econômico nacional está no capital-conhecimento, e que a quebra da desigualdade social só virá com o acesso de todos a uma escola com a mesma qualidade. Quando a falha de infra-estrutura aérea ficou evidente, o governo decidiu construir novas pistas, novos aeroportos, trens especiais para levar os passageiros. Bilhões de reais foram rapidamente prometidos. Isso porque os aviões precisam decolar. Mas não há recursos para fazer o País decolar com a construção dos aeroportos do futuro: as escolas. A maior dificuldade para tirar o Brasil do impasse que vive sua sociedade é convencer a opinião pública de que a escola é importante e os professores são os construtores do futuro. Quando isso acontecer, no momento em que nascer uma criança, seu pai vai colocá-la nos braços, olhará seu rostinho e dirá: “Quando crescer, vai ser professor”. E pensará: “vai ter uma bela carreira, um bom futuro e ajudará o Brasil a vencer nossa guerra contra a pobreza, o atraso, a desigualdade”. Nesse dia, a pergunta feita na semana passada perderá o sentido.

Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

sábado, 15 de dezembro de 2007

Por que os professores não se revoltam?

O texto abaixo foi retirado da revista Caros Amigos e é muito esclarecedor sobre nossa situação.
"O jornal era um desses que anunciam concursos públicos, oportunidades de emprego, vagas para isto e aquilo outro. Era uma edição de fevereiro deste ano. Em mais de uma matéria, anunciavam-se concursos públicos para professores em diversas prefeituras. A prefeitura de Louveira, por exemplo, interior de São Paulo, 80 quilômetros da capital, havia aberto inscrições para diversos cargos, entre os quais, professor. Salvo erro do jornal, os salários anunciados eram: professor de educação de jovens e adultos, 723,39 reais por 20 horas semanais; ensino fundamental, 909,04 reais por 20 horas semanais; professor de ensino médio, 1.094,69 reais por 25 horas semanais.
Comparei os salários oferecidos a um professor com aquele oferecido a um coveiro, 654,40 reais por 40 horas semanais, para cujo cargo as inscrições também estavam abertas na prefeitura de Louveira. Um professor de educação infantil, categoria 1, por exemplo, ganharia, portanto, apenas 68,99 reais a mais do que um coveiro.Todo mundo sabe que professor se mata de trabalhar para aumentar a carga horária e ganhar um pouco mais. E que a carga horária de um professor é, por natureza, mais pesada do que a de qualquer outra profissão. É quatro vezes maior: ele tem o trabalho de preparar a aula (o que significa, muitas vezes, ter que estudar o assunto, ainda que a maioria não o faça sempre), dar a aula e se relacionar pessoalmente com os alunos (tarefa árdua e inglória) e, por último, corrigir as lições dos alunos. Especialmente nas classes de educação infantil, “dar a aula” implica um desgaste físico e psicológico incalculável.É preciso antes dizer que a questão não está localizada nesta ou naquela prefeitura. A desvalorização da profissão de professor é fenômeno nacional e mundial. O salário oferecido ao professor pelos governos estaduais e municipais Brasil afora (e mesmo pela maioria das escolares particulares) é uma humilhação sem precedentes na história dessa profissão.Foram vários os estágios da minha indignação ao constatar a aproximação entre o professor de educação infantil (o mais desvalorizado de todos!) e o coveiro – o mais profundo desses estágios foi a lembrança de dona Helena e dona Cremilda, minhas primeiras professoras, respectivamente no jardim-de-infância, quando eu tinha 5 anos de idade, e da antiga 1a série primária, quando eu tinha 6 anos. As imagens não-borradas dessas duas mulheres são das lembranças mais nítidas que guardo da minha história escolar. Atravessam mais de quatro décadas já sem nenhuma mancha, sem nenhum amarelão de fotos velhas: dona Helena é como se fosse ontem, uma mulher gigante, a mais alta mulher do mundo na minha visão de menina sentada nas cadeiras azuis e rosa da sala de aula, as mesas quadradas de mesma cor. Dona Helena atravessa os tempos impregnada do cheiro de plástico da minha lancheira cor-de-rosa, ela tocando com suas mãos enormes o meu caderno de caligrafia, o meu bloco de desenhos. Dona Helena foi a primeira pessoa que me elogiou na vida! Ora, eu me lembro disso como quem se lembra da primeira grande felicidade que experimentou, ou da primeira grande dor que sentiu, do primeiro corte na pele, do primeiro sangue que escorreu. É da mesma ordem de grandeza, é marcante assim. É tão forte como também foi dona Cremilda, de uma delicadeza sofrida, passando de carteira em carteira a desferir certo ou errado com golpes firmes de caneta vermelha nos nossos cadernos de meninas de um colégio de freiras em Recife. Dona Cremilda tinha cheiro de borracha e ponta de lápis – ela foi a mulher mais importante da minha vida porque foi ela quem me ensinou, mesmo tão profundamente triste como ela me parecia ser, que era preciso conhecer e saber, que era preciso acertar e errar para viver.Não se pode diminuir a função social de nenhuma profissão. Não seria inútil discutir se o coveiro é tão importante quanto o professor ou se este é mais importante do que o juiz ou o médico numa sociedade. Mas o que me interessa aqui é o professor. Ao tratar do menosprezo pelos professores na Alemanha, Adorno, no seu estudo “Tabus acerca do Magistério” (em Educação e Emancipação), trata do que ele chama deformation professionelle (deformação profissional), o nome que a sociologia dá ao que resulta na desvalorização profissional. Adorno discute longamente algumas dimensões da “aversão em relação à profissão de professor”.Ele indica que o menosprezo de que o professor é alvo tem raízes feudais. “A opinião pública não leva a sério o poder dos professores, por ser um poder sobre sujeitos civis não totalmente plenos, as crianças”, afirma o filósofo. “O poder do professor é execrado porque só parodia o poder verdadeiro, que é admirado” (o poder do juiz, do médico, do engenheiro etc.).E vai enumerando as razões que levam ao preconceito contra a profissão, entre as quais: 1. “O problema da inverdade imanente da pedagogia estaria em que o objeto do trabalho é adequado aos seus destinatários, não constituindo um trabalho objetivo motivado objetivamente.”2. “Por trás da imagem negativa do professor encontra-se o homem que castiga (...). Esta imagem representa o professor como sendo aquele que é fisicamente mais forte e castiga o mais fraco” (função que continua a ser atribuída ao professor mesmo depois que oficialmente deixou de existir). 3. “Repete-se na imagem do professor algo da imagem tão afetivamente carregada do carrasco. Que este imaginário é exitoso em firmar a crença de que o professor não é um senhor, mas um fraco que castiga (...) pode ser comprovado de maneira drástica no plano erótico. Por um lado, ele não tem função erótica; por outro, desempenha um grande papel erótico para adolescentes deslumbrados, por exemplo. Mas na maioria dos casos apenas como objeto inatingível (...). A característica de ser inatingível associa-se à imagem de um ser tendencialmente excluído da esfera erótica. Numa perspectiva psicanalítica, esse imaginário do professor relaciona-se à castração.(...) Esta imagem do quase castrado, da pessoa neutralizada ao menos eroticamente, não livremente desenvolvida, esta imagem de pessoas descartadas na concorrência erótica, corresponde à infantilidade real ou imaginária do professor.” 4. “A infantilidade do professor apresenta-se pela sua atitude de substituir a realidade pelo mundo ilusório intramuros, pelo microcosmo da escola, que é isolado em maior ou menor medida da sociedade dos adultos – reuniões de pais e similares são modos desesperados de romper esse isolamento.Por que os professores não se revoltam contra essa burrice social que os relega a segundo plano, a salários miseráveis? O assunto é complexo, como se vê, a carga simbólica pesa sobre as costas desses profissionais. Mas quando torço por uma revolta de professor não é via greve, instrumento de pouco ou quase nenhum efeito como se tem visto no decorrer dos anos. Quem sabe a revolta já esteja mesmo em curso – branca e silenciosa como na notícia que li, há uns meses, sobre a falta de professor no mercado de ensino brasileiro. Contava-se que daqui a alguns anos (vinte, talvez, não me lembro), não haverá mais professor para ensinar se a coisa continuar como anda hoje – parece que ninguém mais quer ser professor. Cada vez menos gente surge para ocupar as vagas que só aumentam. Será talvez a revolução possível, de dentro para fora, sem que uma ordem social seja derrubada pela força – antes (e apenas) pela frustração profunda, pela humilhação insustentável."
Marilene Felinto.

O primeiro dia na escola

Não sei se o primeiro dia na escola dos meus alunos foi ruim, mas o meu foi. Não o meu primeiro dia enquanto estudante, mas o meu como professor da escola pública estadual. Eu sou dotado de uma boa memória e me lembro com grande clareza dos primeiros dias letivos da minha vida estudantil, lembro me da minha alegria de estar na escola pela primeira vez no pré, de chegar até a quinta série, até a oitava série e ao ensino médio. Por mais que nenhuma das escolas públicas e particulares pelas quais passei nunca tivessem excelentes, jamais senti de fato um profundo asco por nenhuma delas, por maiores que fossem suas deficiências sempre pensei que por trás de todos os defeitos havia algo de bom, de útil e proveitoso para a minha vida. A escola podia não ser linda mas não era um barraco, se não havia material suficiente ou de extrema qualidade pelo menos eu podia usar o que tinha, se meus professores não eram os melhores pelo menos a maioria deles era esforçada, se meus colegas não eram os mais legais do mundo eu tinha que aceitar isso e aprender a conviver e interagir com eles.
Acho que não tive uma vida escolar maravilhosa, contudo não foi de modo algum uma experiência traumática, sempre enxerguei que as dificuldades existiam para serem superadas e que é isto que possibilita que o ser humano cresça.
Resumindo a escola era um lugar que eu gostava, que a apesar de todas as suas contradições e problemas me atraía, então quando resolvi fazer faculdade escolhi com prazer a carreira de professor.
Só que o meu prazer acabou no primeiro minuto que eu pus meus pés numa sala de aula de um escola pública.
Lembro me de toda aquela ansiedade, aquela vontade, aquele frio na barriga que eu senti ao entrar na sala pela primeira vez. Professor iniciante cheio de sonhos com aquele desejo de mudar o mundo.
Entrei, na época eu era eventual, carregando um monte de materiais, pensando em aplicar uma atividade de inglês e com o que eu me deparo? Com a mais brutal realidade para a qual nenhuma das aulas e livros da universidade me prepararam. Foi uma experiência horrorosa, era um terceiro ano do ensino médio eles deram pouquíssima atenção para o fato de eu ser novo e entrar na sala, continuaram absortos fazendo o que já vinham fazendo em aulas anteriores copiando mecanimente a matéria que eu passei, não dando a mínima para o que eu tentava falar, realizando o que eu havia pedido com desdem, eram totalmente apáticos e olhavam para mim como se eu realizasse a mais ridícula e inútil das funções.
Saí de lá arrasado tentando entender aonde eu tinha errado e essa sensação se manteve por muitas e muitas aulas, sempre as mesmas coisas: apatia e indisciplina por parte deles e impotência e frustação da minha parte.
Dando aula, enfrentando a prática do dia-a-dia é que pude perceber o tamanho real do problema, o universo escolar atual é um caos. Os alunos de hoje são irrequietos, não crêem na escola, na política ou na sociedade, seus sonhos envolvem bens de consumo e objetos concretos, seus valores, se existem, são difusos e contraditórios, sua concentração é mínima e sobretudo vivem no mundo do agora, do individualismo e da total displicência.
Já os professores têm uma péssima imagem social, ganham pouco, trabalham muito, têm sérias deficiências em sua formação e estão perdidos, completamente perdidos em meio a uma estrutura burocrática que os deforma e os torna preguiçosos, fracos e desiludidos.
É pena que a minha primeira impressão seja a que permaneceu, é pena que alunos e professores vivam num ambiente improdutivo e de interrelações vazias. É uma grande pena, mas para mim o horror maior de todos é que todos no fundo saibamos disso, sem que ninguém faça algo verdadeiro e efetivo para mudar isso.
Esse é o primeiro dia deste blog , esta é a primeira lição amarga de muitas, eu honestamente gostaria que as coisas fossem muito diferentes...