O texto abaixo foi retirado da revista Caros Amigos e é muito esclarecedor sobre nossa situação.
"O jornal era um desses que anunciam concursos públicos, oportunidades de emprego, vagas para isto e aquilo outro. Era uma edição de fevereiro deste ano. Em mais de uma matéria, anunciavam-se concursos públicos para professores em diversas prefeituras. A prefeitura de Louveira, por exemplo, interior de São Paulo, 80 quilômetros da capital, havia aberto inscrições para diversos cargos, entre os quais, professor. Salvo erro do jornal, os salários anunciados eram: professor de educação de jovens e adultos, 723,39 reais por 20 horas semanais; ensino fundamental, 909,04 reais por 20 horas semanais; professor de ensino médio, 1.094,69 reais por 25 horas semanais.
Comparei os salários oferecidos a um professor com aquele oferecido a um coveiro, 654,40 reais por 40 horas semanais, para cujo cargo as inscrições também estavam abertas na prefeitura de Louveira. Um professor de educação infantil, categoria 1, por exemplo, ganharia, portanto, apenas 68,99 reais a mais do que um coveiro.Todo mundo sabe que professor se mata de trabalhar para aumentar a carga horária e ganhar um pouco mais. E que a carga horária de um professor é, por natureza, mais pesada do que a de qualquer outra profissão. É quatro vezes maior: ele tem o trabalho de preparar a aula (o que significa, muitas vezes, ter que estudar o assunto, ainda que a maioria não o faça sempre), dar a aula e se relacionar pessoalmente com os alunos (tarefa árdua e inglória) e, por último, corrigir as lições dos alunos. Especialmente nas classes de educação infantil, “dar a aula” implica um desgaste físico e psicológico incalculável.É preciso antes dizer que a questão não está localizada nesta ou naquela prefeitura. A desvalorização da profissão de professor é fenômeno nacional e mundial. O salário oferecido ao professor pelos governos estaduais e municipais Brasil afora (e mesmo pela maioria das escolares particulares) é uma humilhação sem precedentes na história dessa profissão.Foram vários os estágios da minha indignação ao constatar a aproximação entre o professor de educação infantil (o mais desvalorizado de todos!) e o coveiro – o mais profundo desses estágios foi a lembrança de dona Helena e dona Cremilda, minhas primeiras professoras, respectivamente no jardim-de-infância, quando eu tinha 5 anos de idade, e da antiga 1a série primária, quando eu tinha 6 anos. As imagens não-borradas dessas duas mulheres são das lembranças mais nítidas que guardo da minha história escolar. Atravessam mais de quatro décadas já sem nenhuma mancha, sem nenhum amarelão de fotos velhas: dona Helena é como se fosse ontem, uma mulher gigante, a mais alta mulher do mundo na minha visão de menina sentada nas cadeiras azuis e rosa da sala de aula, as mesas quadradas de mesma cor. Dona Helena atravessa os tempos impregnada do cheiro de plástico da minha lancheira cor-de-rosa, ela tocando com suas mãos enormes o meu caderno de caligrafia, o meu bloco de desenhos. Dona Helena foi a primeira pessoa que me elogiou na vida! Ora, eu me lembro disso como quem se lembra da primeira grande felicidade que experimentou, ou da primeira grande dor que sentiu, do primeiro corte na pele, do primeiro sangue que escorreu. É da mesma ordem de grandeza, é marcante assim. É tão forte como também foi dona Cremilda, de uma delicadeza sofrida, passando de carteira em carteira a desferir certo ou errado com golpes firmes de caneta vermelha nos nossos cadernos de meninas de um colégio de freiras em Recife. Dona Cremilda tinha cheiro de borracha e ponta de lápis – ela foi a mulher mais importante da minha vida porque foi ela quem me ensinou, mesmo tão profundamente triste como ela me parecia ser, que era preciso conhecer e saber, que era preciso acertar e errar para viver.Não se pode diminuir a função social de nenhuma profissão. Não seria inútil discutir se o coveiro é tão importante quanto o professor ou se este é mais importante do que o juiz ou o médico numa sociedade. Mas o que me interessa aqui é o professor. Ao tratar do menosprezo pelos professores na Alemanha, Adorno, no seu estudo “Tabus acerca do Magistério” (em Educação e Emancipação), trata do que ele chama deformation professionelle (deformação profissional), o nome que a sociologia dá ao que resulta na desvalorização profissional. Adorno discute longamente algumas dimensões da “aversão em relação à profissão de professor”.Ele indica que o menosprezo de que o professor é alvo tem raízes feudais. “A opinião pública não leva a sério o poder dos professores, por ser um poder sobre sujeitos civis não totalmente plenos, as crianças”, afirma o filósofo. “O poder do professor é execrado porque só parodia o poder verdadeiro, que é admirado” (o poder do juiz, do médico, do engenheiro etc.).E vai enumerando as razões que levam ao preconceito contra a profissão, entre as quais: 1. “O problema da inverdade imanente da pedagogia estaria em que o objeto do trabalho é adequado aos seus destinatários, não constituindo um trabalho objetivo motivado objetivamente.”2. “Por trás da imagem negativa do professor encontra-se o homem que castiga (...). Esta imagem representa o professor como sendo aquele que é fisicamente mais forte e castiga o mais fraco” (função que continua a ser atribuída ao professor mesmo depois que oficialmente deixou de existir). 3. “Repete-se na imagem do professor algo da imagem tão afetivamente carregada do carrasco. Que este imaginário é exitoso em firmar a crença de que o professor não é um senhor, mas um fraco que castiga (...) pode ser comprovado de maneira drástica no plano erótico. Por um lado, ele não tem função erótica; por outro, desempenha um grande papel erótico para adolescentes deslumbrados, por exemplo. Mas na maioria dos casos apenas como objeto inatingível (...). A característica de ser inatingível associa-se à imagem de um ser tendencialmente excluído da esfera erótica. Numa perspectiva psicanalítica, esse imaginário do professor relaciona-se à castração.(...) Esta imagem do quase castrado, da pessoa neutralizada ao menos eroticamente, não livremente desenvolvida, esta imagem de pessoas descartadas na concorrência erótica, corresponde à infantilidade real ou imaginária do professor.” 4. “A infantilidade do professor apresenta-se pela sua atitude de substituir a realidade pelo mundo ilusório intramuros, pelo microcosmo da escola, que é isolado em maior ou menor medida da sociedade dos adultos – reuniões de pais e similares são modos desesperados de romper esse isolamento.Por que os professores não se revoltam contra essa burrice social que os relega a segundo plano, a salários miseráveis? O assunto é complexo, como se vê, a carga simbólica pesa sobre as costas desses profissionais. Mas quando torço por uma revolta de professor não é via greve, instrumento de pouco ou quase nenhum efeito como se tem visto no decorrer dos anos. Quem sabe a revolta já esteja mesmo em curso – branca e silenciosa como na notícia que li, há uns meses, sobre a falta de professor no mercado de ensino brasileiro. Contava-se que daqui a alguns anos (vinte, talvez, não me lembro), não haverá mais professor para ensinar se a coisa continuar como anda hoje – parece que ninguém mais quer ser professor. Cada vez menos gente surge para ocupar as vagas que só aumentam. Será talvez a revolução possível, de dentro para fora, sem que uma ordem social seja derrubada pela força – antes (e apenas) pela frustração profunda, pela humilhação insustentável."
Marilene Felinto.
sábado, 15 de dezembro de 2007
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