sábado, 15 de dezembro de 2007

O primeiro dia na escola

Não sei se o primeiro dia na escola dos meus alunos foi ruim, mas o meu foi. Não o meu primeiro dia enquanto estudante, mas o meu como professor da escola pública estadual. Eu sou dotado de uma boa memória e me lembro com grande clareza dos primeiros dias letivos da minha vida estudantil, lembro me da minha alegria de estar na escola pela primeira vez no pré, de chegar até a quinta série, até a oitava série e ao ensino médio. Por mais que nenhuma das escolas públicas e particulares pelas quais passei nunca tivessem excelentes, jamais senti de fato um profundo asco por nenhuma delas, por maiores que fossem suas deficiências sempre pensei que por trás de todos os defeitos havia algo de bom, de útil e proveitoso para a minha vida. A escola podia não ser linda mas não era um barraco, se não havia material suficiente ou de extrema qualidade pelo menos eu podia usar o que tinha, se meus professores não eram os melhores pelo menos a maioria deles era esforçada, se meus colegas não eram os mais legais do mundo eu tinha que aceitar isso e aprender a conviver e interagir com eles.
Acho que não tive uma vida escolar maravilhosa, contudo não foi de modo algum uma experiência traumática, sempre enxerguei que as dificuldades existiam para serem superadas e que é isto que possibilita que o ser humano cresça.
Resumindo a escola era um lugar que eu gostava, que a apesar de todas as suas contradições e problemas me atraía, então quando resolvi fazer faculdade escolhi com prazer a carreira de professor.
Só que o meu prazer acabou no primeiro minuto que eu pus meus pés numa sala de aula de um escola pública.
Lembro me de toda aquela ansiedade, aquela vontade, aquele frio na barriga que eu senti ao entrar na sala pela primeira vez. Professor iniciante cheio de sonhos com aquele desejo de mudar o mundo.
Entrei, na época eu era eventual, carregando um monte de materiais, pensando em aplicar uma atividade de inglês e com o que eu me deparo? Com a mais brutal realidade para a qual nenhuma das aulas e livros da universidade me prepararam. Foi uma experiência horrorosa, era um terceiro ano do ensino médio eles deram pouquíssima atenção para o fato de eu ser novo e entrar na sala, continuaram absortos fazendo o que já vinham fazendo em aulas anteriores copiando mecanimente a matéria que eu passei, não dando a mínima para o que eu tentava falar, realizando o que eu havia pedido com desdem, eram totalmente apáticos e olhavam para mim como se eu realizasse a mais ridícula e inútil das funções.
Saí de lá arrasado tentando entender aonde eu tinha errado e essa sensação se manteve por muitas e muitas aulas, sempre as mesmas coisas: apatia e indisciplina por parte deles e impotência e frustação da minha parte.
Dando aula, enfrentando a prática do dia-a-dia é que pude perceber o tamanho real do problema, o universo escolar atual é um caos. Os alunos de hoje são irrequietos, não crêem na escola, na política ou na sociedade, seus sonhos envolvem bens de consumo e objetos concretos, seus valores, se existem, são difusos e contraditórios, sua concentração é mínima e sobretudo vivem no mundo do agora, do individualismo e da total displicência.
Já os professores têm uma péssima imagem social, ganham pouco, trabalham muito, têm sérias deficiências em sua formação e estão perdidos, completamente perdidos em meio a uma estrutura burocrática que os deforma e os torna preguiçosos, fracos e desiludidos.
É pena que a minha primeira impressão seja a que permaneceu, é pena que alunos e professores vivam num ambiente improdutivo e de interrelações vazias. É uma grande pena, mas para mim o horror maior de todos é que todos no fundo saibamos disso, sem que ninguém faça algo verdadeiro e efetivo para mudar isso.
Esse é o primeiro dia deste blog , esta é a primeira lição amarga de muitas, eu honestamente gostaria que as coisas fossem muito diferentes...

Um comentário:

Anônimo disse...

Um Sonho.

Há alguns anos escolhi ser professor, comprei livros, cursei a faculdade com empenho, sonhei com meu primeiro dia de aula, planejei cada minuto, foi mágico, aqueles sorrisos, aquele interesse, tinha até algumas piadas. Todos rindo.
Desta maneira foi meu primeiro dia de aula, mas com tristeza tenho que admitir que os sonhos são finitos e limitados por uma crua e fria realidade. Na verdade, os sorrisos deram lugar as reclamações “Professor você vai passar lição?". Depois as piadas engraçadas surgiram com um tom mais alto, como berros que tentavam de alguma maneira tocar aqueles corações agitados e frenéticos. Quanto à risada coletiva se tranformou em um tremendo rebuliços de falas, acho que até grunhidos. Tenebroso.
Este foi meu primeiro dia na realidade desta profissão "missionária".
Fui até a coordenadora para pedir algum auxílio, e ela fria disse que eu deveria cativar meus alunos, chamar a atenção deles. Voltei a sala de aula munido de minhas “armas” como se fosse á uma guerra, um giz, um livro de poesias de Carlos Drummond e esperando encontrar uma lousa verde. Mas eles também tinham “armas” e posso dizer que elas eram mais avançadas, celulares comuns e alguns com câmeras, mp3, e alguns itens que até desconhecia, neste momento percebi como seria a batalha, Eu e Drummond fomos derrotados pela falta de... ... ... ...!
Mas em meio a esta manifestação única de frustração, percebi um garoto que atentamente olhava o poema de Carlos Drummond, intitulado "Tinha uma pedra no meio do caminho" escrito na lousa. Este mesmo garoto disse:
- Professor o que ele quis dizer com uma pedra no meio do caminho?”“.
Todos os dias que entro na Escola penso sobre esta pedra e como deixei de ser professor para simplesmente estar professor, com data de validade e almejando não uma valorização financeira, mas sim um novo sonho!
Mas tenho que admitir sou um sonhador e acredito que de alguma maneira exista uma luz no fim da caverna.
“O professor é um educador
finge tão completamente
que chega a fingir que não sente dor
Mas dor deverá sente

E os que lêem o que escreve
Não percebem o esforço
Agem com desdém
A desvalorização que não tem
Mas que o professor sente bem

E assim nas diversas Escolas
O professor entretém a razão
Neste difícil ambiente
Que transforma sonho em ilusão.